Estudo: número de furacões pode dobrar até o fim do século

A simulação mais detalhada demonstrou elevação de 80% na incidência das tempestades mais intensas - as de categoria quatro.
O número de grandes furacões originados a cada ano no Oceano Atlântico pode dobrar até o final do século, como reação ao aquecimento global, de acordo com um estudo científico publicado recentemente. Uma equipe de pesquisadores especializados em furacões sugere que os danos de um número maior de furacões muito fortes – ou seja, das categorias quatro e cinco – devem compensar ou até exceder, em termos de efeitos totais, o declínio previsto no número de tempestades menos intensas.
Em 2008, uma equipe comandada por Thomas Knutson, do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos, em Princeton Nova Jersey, fez uma projeção de queda acentuada no número de tempestades tropicais e furacões gerados na porção oeste do Oceano Atlântico Norte.
O resultado do estudo do laboratório, que é parte da Administração Nacional da Atmosfera e Oceano (NOAA) dos Estados Unidos, se baseia em uma simulação sobre a atividade de furacões no Atlântico em uma situação de aquecimento mundial, e apanhou os cientistas de surpresa. Em busca de uma explicação, os estudiosos propuseram a hipótese de que a metade oeste do Oceano Atlântico poderia desenvolver condições menos favoráveis para tempestades, caso a ascensão das temperaturas marinhas de superfície mais ao sul venha a atrair tempestades originadas do Golfo do México e regiões adjacentes.
No entanto, dada sua resolução da ordem de 18 km, os modelos que a equipe utilizou em sua simulação inicial eram brutos demais para calcular dados sobre sistemas individuais de tempestades. Ao repetirem seus esforços, dessa vez com um modelo que oferecia resolução bastante superior, os cientistas encontraram uma alteração na distribuição de tempestades.
A simulação mais detalhada confirmou o declínio no número agregado de tempestades, mas também demonstrou elevação de 80% na incidência das tempestades mais intensas – as de categoria quatro, com ventos de 210 km/h a 249 km/h, e as de categoria cinco, com ventos superiores a 250 km/h.
Força de tempestade
O estudo, conduzido por Morris Bender, cientista especializado em estudos atmosféricos no laboratório da NOAA, utilizou os mesmos 18 modelos de clima mundial empregados para o trabalho anterior, acompanhados por quatro novos modelos, a fim de simular as temperaturas de superfície no oceano e a atividade de tempestades no Atlântico, tomando por base o cenário de emissões futuras moderadas proposto para o século 21 em estudo do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática.
Com base nisso, eles começaram a avaliar as tempestades de maior interesse, gerando quadro mais detalhado sobre elas por meio de um modelo computadorizado para furacões desenvolvido pelo Serviço Material de Meteorologia, outra das divisões da NOAA, e observando seu comportamento ao longo do prazo simulado de cinco dias.
“Observar os modelos em escala maior revelou detalhes como os faixas de chuva nos furacões, seus padrões de movimentação vertical e a estrutura de separação entre as muralhas do furacão e a área central de calmaria”, disse Bender. “Acreditamos que um clima mais quente altere os padrões de movimentação vertical do vento, e que isso impedirá que muitas tempestades cresçam até atingir força de furacão. Mas em pequenas sub-regiões do Atlântico, o efeito pode não se aplicar, e as tempestades que percorrerem essas áreas têm grande probabilidade de se tornarem mais intensas”.
“Isso é importante porque, nos Estados Unidos, por exemplo, 80% dos danos são causados por tempestades da categoria três ou superior”, diz Kerry Emanuel, pesquisador de furacões no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Modelando a incerteza
O padrão de oscilação do vento – a mudança espacial de direção e velocidade que ele sofre – deve se tornar mais acentuado caso o planeta se aqueça, o que inibiria a rotação ciclônica dos ventos, um efeito que alguns cientistas consideram possa vir a compensar o da elevação na temperatura marinha. A projeção de que acontecerão menos tempestades no Atlântico, mas com intensidade maior, bate com os resultados das pesquisas de outros grupos que empregaram modelos climáticos de alta definição a fim de estudar a atividade de furacões.
Emanuel, por exemplo, se concentrou no montante de energia que as tempestades liberam, a fim de projetar as mudanças na atividade de furacões. Alguns dos modelos que usou projetam forte elevação no poder de furacões do Oceano Atlântico, uma observação compatível com a dos estudos mais recentes da NOAA. Mas Knutson expressa certa cautela. Um dos quatro outros modelos que a equipe empregou para suas simulações mostra um decréscimo em todas as categorias de furacões, e ele diz que essa também deve ser considerada uma solução plausível.
“O que nos oferece confiança é que os nossos modelos reproduzem muito bem as observações históricas”, ele diz. “Mas continuamos a lidar com um problema que exibe alta incerteza inerente”.
Fonte: Notícias Terra/Tradução: Paulo Migliacci ME



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