Com o dinheiro que recebe da venda de resíduos sólidos, a agente de coleta Conceição Souza paga água, luz e as despesas dos cincos filhos. Integrante do Projeto Ação Reciclar, desde junho de 2005, ela reconhece a importância do projeto em sua vida e diz que “depende desta renda para sobreviver”. Mas, apesar de gerar emprego e renda para atualmente um grupo de 40 catadores e contribuir para a melhoria da qualidade ambiental da cidade, o Ação Reciclar está ameaçado.

A baixa adesão da comunidade e as sucessivas quedas no preço dos materiais recicláveis diminuíram a remuneração dos agentes e tornou-se um agravante para o Ação Reciclar. O projeto corre um sério risco de não cumprir sua principal meta para 2006: tornar-se uma cooperativa auto-sustentável até o final de março deste ano. Mesmo tendo alcançado e ultrapassado as metas de produção da coleta seletiva estipuladas pelo Governo do Estado – Secretaria de Combate à Pobreza e às Desigualdades Sociais (Secomp), patrocinador do projeto, este ideal ainda é inatingível. “A sobrevivência do projeto depende da adesão em massa de moradores dos bairros que são beneficiados pela coleta. Se o Ação Reciclar for extinto, vamos ter muitos jovens de baixa renda e pais de famílias desempregados”, diz Nilda Souza, diretora de Meio Ambiente da ONG Paciência Viva, executora do projeto.

Segundo dados da Limpurb, são produzidas cerca de 120 toneladas de lixo por dia em Ondina, Rio Vermelho e Federação, onde atua o Ação Reciclar. Apesar do trabalho constante realizado pelos educadores voluntários, apenas 500 foram cadastrados como doadores fixos de material reciclável. O número ainda é insuficiente para garantir a sustentabilidade do projeto e ínfimo se considerada a estimativa de 20 mil estabelecimentos comerciais, residenciais e de ensino existentes nesses três bairros.

O restaurante Extudo integra o grupo de empresas que doam resíduos para o Ação Reciclar. Há seis meses, os funcionários do estabelecimento separam o lixo produzido diariamente e o colocam nos recipientes adequados para a coleta seletiva. “Colaborar com o Ação Reciclar é muito importante porque além de dar destino responsável ao nosso lixo, contribuímos com a geração de renda para pessoas necessitadas”, diz Ana Cristina Tenório, gerente do restaurante.

Novos educadores ambientais

Ciente de que a viabilidade da coleta seletiva depende fundamentalmente da atitude consciente da população, o Projeto Ação Reciclar vem intensificando sua campanha de educação ambiental. Promove palestras e distribuição de informativos para sensibilizar os moradores e trabalhadores da comunidade quanto à importância socioambiental da coleta seletiva. No final do ano passado foram selecionados e treinados mais 12 agentes ambientais voluntários para cadastrar novos estabelecimentos. “Nossa proposta é sensibilizar a comunidade para a separação e doação dos materiais recicláveis aos agentes de coleta ou diretamente no galpão do projeto”, explica a bióloga Ana Soraia, coordenadora da educação ambiental.

Estratégias

“A ONG também está buscando, nesta reta final até abril, apoios e recursos para uma campanha publicitária e novas estratégias de marketing para convocar o maior número de pessoas a colaborar com o Ação Reciclar. Já contamos com a participação de vários artistas, como Jackson Costa, Carla Visi, Ruy Santana, Bel Borba, André Becker, Denis Sena e agora precisamos que os empreendedores enxerguem a necessidade deste projeto se manter vivo no Rio Vermelho, Ondina e Federação”, informa Cláudio Deiró, diretor-superintendente da ONG.

Uma dessas estratégias é o Escoação 65, evento cultural que a ONG vem realizando duas vezes ao mês para divulgar o Ação Reciclar. As duas primeiras edições apresentaram os shows da BR Soul, Bando Virado no Mói de Coentro, Keko Pires e Ivan Oliveira, os vídeos “Cega Seca” e “Caçadores de Saci” (Sofia Federico) e “Ação Reciclar, um projeto de vida”. O galpão do projeto foi transformado numa galeria de arte pelas mãos de Denis Sena, Ruy Santana, Cau Gomez, Davi Cavalcanti e Flávio Lopes. A idéia do Escoação 65 é aproveitar o poder de mobilização da arte para chamar a atenção da comunidade para a necessidade de apoio às ações da Paciência Viva, sendo a mais urgente delas o Projeto Ação Reciclar.

Reportagem: Conceição Ferreira